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Benzedeira mantém a tradição de rezas e garrafadas em São Carlos

17/09/2015

Eva Leão Baltazar, de 80 anos, atende crianças e adultos 3 vezes por semana.
Idosa herdou o dom do pai e descobriu a tarefa após passar mal e pedir ajuda.




Eva Leão Baltazar, de 80 anos, passa três dias por semana acompanhada por Nossa Senhora, São Jorge, Nossa Senhora de Fátima e muitos outros. Todos integram o altar do cômodo reservado para atender pessoas em busca de alívio, conforto, paz. Compõem o espaço dedicado a uma tarefa cada vez mais rara: benzer.

O quarto fica no Jardim Centenário, em São Carlos [SP], e toda segunda, quarta e sexta recebe até 20 visitantes de diferentes lugares. Quem chega pega a senha e aguarda em uma das cinco cadeiras do quintal. Pela manhã, são priorizadas as crianças e, à tarde, os adultos.

Mas por que priorizar os pequenos? “Criança é fraca. Tem quebranto, mau olhado, se assusta com barulho. Tem que benzer, fazer oração”, explicou vó Eva, como é conhecida, com a experiência de quem atendeu diferentes gerações. “Às vezes, a pessoa chega e falo: ‘Que tamanho que você está agora’”.

Ela não se lembra de todos que atendeu nos mais de 40 anos de benzimento. Nesse tempo, fez garrafadas [prática com mistura de ervas] para ajudar mulheres que queriam engravidar, para aliviar dores, rezou e ouviu muito.

“Há o choro oprimido, problemas sérios, a pessoa quer uma palavra amiga, de conforto, e não acha”. Também faltam amigos, parentes. “Cadê os compadres, as madrinhas que beijavam na mão, os tios, os avôs?”, questionou.

E cadê as benzedeiras, vó Eva? “As pessoas, às vezes, passaram para outra religião”, buscou explicar ela, que vê nas filhas uma possibilidade de continuidade. Pelo menos para as garrafadas. “Minhas meninas sabem e quem tomou sabe, pode ensinar para os outros”.

Herança
Criada na antiga fazenda Tamoio, Eva trabalhou por anos na lavoura. Cortou cana, foi faxineira, lavava roupa, passava, cozinhava, costurava, tudo de acordo com as oportunidades disponíveis. “Família de gente pobre anda. Às vezes, não tinha emprego e a gente se mudava”.

Se casou pela primeira vez com 17 anos e teve dois filhos com o primeiro marido, perdido em um acidente. Quando as crianças eram pequenas, começou a passar mal e decidiu ir para o Centro Espírita mais próximo. “Era só cana dos dois lados, andávamos muito. Dava medo”, lembrou Dalva Ferreira, de 60 anos, que ia com a mãe e o irmão ao local.

Lá, Eva voltou a tomar passes e desenvolver seu lado espiritual. Aos poucos, começou a ajudar as mulheres que trabalhavam no espaço e depois seguiu o caminho já trilhado por seu pai. “Ele já era benzedor”, contou.

Seis anos após perder o marido, ela se uniu ao atual companheiro. Do segundo casamento vieram mais quatro filhos e, em 1983, a mudança para São Carlos. Quando chegou, já benzia sozinha e desde que se estabeleceu nunca parou de atender. Hoje, recebe pedidos de oração até de pessoas nos Estados Unidos e na Itália.

Rezar
Antes de começar a atender, Eva prepara a sala. Acende uma vela e reza um Pai Nosso, uma Ave Maria, um Salve Rainha e um Credo, as mesmas orações feitas com cada pessoa atendida. Não gosta da ideia de ter visões, disse que teria medo, e nas orações pede proteção e que o mal seja afastado.

Entende que funciona como uma “passagem”, que a fé é o melhor remédio e que a oração tem poder. “Eu, tão pequenina, não sou nada. Fé é importante. Se não tiver fé, perseverança, é duro”, disse.

Sobre o impacto de sua ação, afirmou que, no momento do atendimento, a pessoa se sente bem e que, se tem fé e faz o que precisa fazer, muda. Sai da sala diferente. E ela fica em paz. “Contente porque fiz o bem. A missão daquela hora está cumprida. Se precisar de mais, volta”.

Mistérios
Espírita e católica, sempre que pode Eva vai à missa. Gosta de rezar, agradecer e pedir força e saúde. Contou que não é de chorar e que, quando fica doente, tenta não se abater. Foi assim recentemente, quando teve pneumonia e pouco tempo depois voltou à ativa. “Meu caminho é esse aqui. Nunca tive vontade de parar. Meu remédio é esse aqui”.

“Ela não reclama de nada”, contou a filha Carmem Baltazar, de 52 anos. Ela relatou que, antes do uso de senhas, a mãe não parava de atender e a organização foi necessária para preservá-la. Também por isso há dias em que ela não atende e há visitas de pessoas que a ajudam a recuperar a energia.

Outro fator revigorante é o jardim com diferentes espécies. “Gosto muito de planta. Quando cheguei aqui, tinha baba de bode, angico, capim, nada de casas. Hoje não se vê plantação. Queria mais plantação de milho, de feijão”, disse vó Eva, que usa algumas espécies cultivadas no espaço nas garrafadas aprendidas com os pais.

“A gente não tinha medo de fazer, a gente faz com certeza”, explicou ela, sem generalizar os casos. “O corpo tem muito mistério”.

Sem cobrança
“A dona Eva é muito conhecida, gosto muito. O benzedor faz a troca de energia e acho que a gente precisa disso. Sempre que dá a gente vem”, disse uma visitante de 28 anos que frequenta o imóvel desde a adolescência e agora faz questão de levar o filho de cinco anos. “Quando a gente passa em frente, ele já fala que é a casa da vó Eva. Ele sai mais leve, mais tranquilo”.

Além de filhos, algumas pessoas levam cachorro, gato, a chave do carro. Sempre para pedir uma bênção e sempre sem custo. “É fazer o bem e não olhar a quem”, resumiu vó Eva.


G1



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