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“Quem fundou Descalvado?” - Por Luís Carlindo Arruda Kastein

06/09/2016

Uma polêmica histórica - José Ferreira da Silva, Agostinho José Alves de Amorim ou Florência Maria de Jesus?

Luiz Carlindo Arruda Kastein



Sempre existiu quem considerasse o ano de 1809 como o de fundação de Descalvado, por Agostinho José Alves de Amorim, portanto 23 anos antes da doação das terras por José Ferreira da Silva. Como não é de hoje que existe a polêmica sobre o fundador de Descalvado, vamos aventar também a hipótese de que a verdadeira fundadora da cidade tenha sido Florência Maria de Jesus. Afinal o português catarinense Agostinho José Alves de Amorim tomou posse destas terras no ano de 1809 [fazenda Caridade] e nada doou para constituição do patrimônio. O português mineiro José Ferreira da Silva adquiriu sua fazenda [Areias] em 1820 e também não se preocupou em ceder terras para o patrimônio público.

A doação para a Capela só veio a ocorrer em 1832 quando Florência Maria de Jesus adoeceu e por sua recuperação fez o seguinte voto religioso à santa de sua devoção que era Nossa Senhora do Belém: Doação de uma légua de terras para constituir patrimônio da Igreja construindo uma capela em louvor à Nossa Senhora do Belém, cuja imagem esculpida em madeira teria a altura e peso de Florência Maria de Jesus. Foi a partir daí que nasceu a capela, a vila, a cidade. Então quem fundou Descalvado? Mas vamos à história completa: Durante muitos anos a Câmara Municipal discutiu sobre quem inventou Descalvado. Seria Agostinho José Alves de Amorim, português, lá dos confins de Santa Catarina, que chegou por aqui em 1809 e abriu a Fazenda Caridade no então sertão de Araraquara, ou seria José Ferreira da Silva que em 1842 por escritura particular, doou parte de seu patrimônio para a Paróquia de Nossa Senhora do Belém? Antenor Betarello historiador fica com o primeiro. Gerson Álfio De Marco também historiador, com o segundo.

Polêmica à parte, vamos conhecer esta história. Agostinho José Alves de Amorim nasceu na Província de Santa Catarina no ano de 1787. Em 1809, com apenas 22 anos, chegou às terras inóspitas e sem dono, de Descalvado. Estabeleceu-se ao norte do município, em terras férteis entre as margens dos rios Mogi-Guaçu e Pântano. Nesta vasta extensão de terras, abriu a Fazenda Caridade, que inicialmente tinha uma légua mais ou menos de comprimento e três quartos de légua mais ou menos de largura, ou seja, uma média de 6.600 metros de comprimento por 4.950 metros de largura [3.267 hectares ou 1.350 alqueires paulistas]. Aqui progrediu e como rico proprietário rural desenvolveu os trabalhos para a criação da Freguesia e o desenvolvimento do povoado, pertencendo ao rol dos homens mais notáveis da terra, pela sua coragem, já que enfrentava a desordem de nosso rincão, lutando abnegadamente por nossos direitos e contra a prepotência dos políticos de Araraquara. Com seu dinamismo conseguiu que o Imperador Pedro II, através da lei n.º 21 de 28 de fevereiro de 1844, transformasse em Freguesia a Capela Curada de Nossa Senhora do Belém do Descalvado, e suas desavenças com os políticos araraquarenses desanexaram nossas terras daquele Município, transferindo-as para o de Mogi-Mirim. Depois de permanecer em Descalvado por 55 anos, faleceu em 1864 e aqui foi enterrado. Amorim morreu um ano antes de nossa elevação a Município.

Estivesse vivo, certamente teria sido eleito para participar de nosso primeiro legislativo, e com certeza se transformaria em nosso primeiro Agente Executivo [Prefeito Municipal] não só pelo seu pioneirismo, mas também pelo seu apego à terra descalvadense. Pouco antes de morrer praticou mais um ato exemplar doando todos seus haveres a um de seus escravos chamado João da Nação. A Câmara Municipal reconhecendo o trabalho deste pioneiro, através da lei n.º 13 de 6 de setembro de 1954, denominou a rua férrea, ao lado da antiga linha férrea da FEPASA, como rua Agostinho José Alves de Amorim. José Ferreira da Silva, era natural de Minas Gerais, de Santo Antônio do Machado, onde o rio Machado corre tranquilamente ziguezagueando pelas planícies alongadas até desaparecer bruscamente no horizonte. As águas do rio jorram violentamente pela pedreira abaixo com ronco surdo e contínuo no Poço Fundo.

É assim a Cachoeira do Poço Fundo, que dá nome ao bairro do Poço Fundo, na época município de Santo Antonio do Machado. Dali em 1820, com 31 anos de idade, partiu José Ferreira da Silva e sua mulher Florência Maria de Jesus para o sertão de Araraquara, onde adquiriram de Alexandre José de Castilho, a Fazenda Areias, da qual em 1832 cumprindo voto religioso, doaram uma légua de terras para Nossa Senhora do Belém, dando início ao povoado. Após a doação poucas referências temos da vida do casal.

Sabe-se que José Ferreira da Silva foi eleitor na Paróquia até 1860, data provável de seu falecimento com 71 anos de idade. De Florência Maria de Jesus não tivemos mais registros após a escritura de doação. Os dois não participaram da vida política da cidade, com toda certeza eram pessoas bem simples e analfabetas, já que na escritura de doação das terras, Agostinho José Alves de Amorim assinou a rogo de José Ferreira da Silva e Alexandre José de Castilho a rogo de Florência Maria de Jesus. Os poderes públicos homenagearam José Ferreira da Silva dando seu nome a uma rua central e ao tradicional “Ginásio”. Florência Maria de Jesus foi homenageada com seu nome dado a uma pequena praça ao lado da estação ferroviária.

O Dr. Glenan Leite Dias, conceituado médico, e que não raras vezes assinava artigos em jornais da terra, certa vez escreveu: \"Agostinho de Amorim encontrou Descalvado e não inventou Descalvado - inspiração original de José Ferreira, cujo nome é patrimônio histórico que recebemos das gerações passadas e que temos a responsabilidade de transmitir às gerações futuras. E escreveu mais:

\"Não faz muito, assistimos ilustre político sofrer inesperada derrota, em pleito municipal, possivelmente por ter atribuído a Agostinho de Amorim a fundação da cidade\". Referia-se o médico ao historiador Antenor Betarello que sofreu esmagadora derrota nas eleições municipais de 1959 quando enfrentou Deolindo Zaffalon, como candidatos a prefeito. Apesar de ter sido apoiado pelo então prefeito Jayme Regallo Pereira, obteve apenas 708 votos, contra 1.721 votos de Deolindo. Derrotado nas eleições perdemos o político e o historiador que daqui partiu para nunca mais voltar. Do mesmo lado do Dr. Glenan, estava o inesquecível amigo e historiador Gerson Álfio De Marco que sempre afirmou que embora Amorim tenha chegado primeiro, aqui só constituiu fazenda. Não fosse a doação de José Ferreira e sua mulher de um patrimônio para a Igreja de Nossa Senhora do Belém, e não teríamos o povoado, a vila, o município.

Afirmava ele, seríamos sempre terras de Araraquara. Mas e se não fosse o voto religioso de Florência Maria de Jesus, um dos dois teria se preocupado em doar patrimônio para a Igreja? Amorim de 1809 a 1832, durante 23 anos não manifestou intenção. José Ferreira de 1820 a 1832, corridos 12 anos, só se preocupou com a doação a partir da enfermidade da mulher. Afinal se Descalvado existe, pelo menos oficialmente, pela escritura de doação, lavrada na Câmara Municipal de Rio Claro, foi por força e vontade religiosa de Florência Maria de Jesus. Com toda certeza Agostinho José Alves de Amorim, José Ferreira da Silva e Florência Maria de Jesus, estão se revirando, cada qual em seu túmulo, para conquistar um lugar em nossa história, como verdadeiro fundador das terras de Nossa Senhora do Belém do Descalvado.





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